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domingo, 25 de março de 2018

O que era omisso ficou confuso




Todas as legislações vitivinícolas do mundo procuram, nos capítulos relacionados a classificação dos vinhos, definir estes em função de diferentes parâmetros, sempre procurando estimular a qualidade e a superação de desafios, mas principalmente proteger o consumidor com regras claras e possíveis de serem cumpridas.

Para algumas como por exemplo os prazos mínimos de maturação ou envelhecimento, a legislação deve estabelecer as ferramentas de controle e/ou certificação necessárias.

A legislação brasileira sempre foi omissa, a tal ponto, que define os vinhos em somente duas categorias relacionadas ao tipo de uva:

Mesa: elaborados com qualquer tipo de uvas, das espécies labrusca (uvas americanas) ou vinífera (uvas europeias).

Fino fino: elaborados exclusivamente com uvas da espécie Vitis vinífera e com graduação alcoólica de 10% a 14%.

Apesar disto, e sem nenhum tipo de impedimento, algumas cantinas já utilizavam os termos Seleção, Reserva, Gran Reserva, Ícone, Premium, Super Premium deixando por conta do consumidor a definição dos mesmos.

Claro que este consumidor imagina que todas estas palavras constantes nos rótulos indicam algum tipo de qualidade especial. Ledo engano, nenhuma regra existia na legislação. E digo no existia, porque agora, através da Instrução Normativa Nro. 14 de 8 de fevereiro de 2018, o Ministério acaba de definir algumas categorias num verdadeiro esforço de imaginação. Para mim, o que era omisso, agora ficou confuso.

Vamos ao que é mais importante nesta Instrução.

Artigo 30: Em função de características adicionais de qualidade, o vinho fino e o vinho nobre (logo falaremos dele já que é um novo tipo), produzidos em território nacional, podem ser classificados como:

Inciso 1º: Reservado: vinho jovem pronto para consumo, com graduação alcoólica mínima de 10% vol.

Inciso 2º: Reserva: quando o vinho com graduação alcoólica de 11% vol. passar por um período mínimo de envelhecimento de 12 meses (tintos) ou 6 meses (brancos) sendo facultada a utilização de recipientes de madeira apropriadas.

Inciso 3º: Gran Reserva: quando o vinho com graduação mínima de 11% vol. passar por um período mínimo de envelhecimento de 18 meses (tintos) ou 12 meses (brancos) sendo obrigatória a utilização de recipientes de madeira apropriada de no máximo seiscentos litros de capacidade por no mínimo 6 meses (tintos) ou 3 meses (brancos).

Em relação a chaptalização é permitida em até 2% nos Reservados, 1% no Reserva e vedada para Gran Reserva.

Artigo 34: São classificados e denominados Vinhos Nobres, aqueles elaborados no território nacional exclusivamente a partir de uvas da espécie Vitis vinífera que apresentarem teor alcoólico de 14,1% vol. a 16% vol.
Neste vinho é vedada a chaptalização e pode ser seco, meio doce e suave ou doce.

Acredito que esta categoria, válida, deveria ter como primeira limitação as variedades de uva permitidas. Não todas as Vitis Viníferas, somente aquelas com potencial para vinhos com essa denominação. Quais? A serem discutidas.
Sobre a graduação alcoólica me parece fora de proposito estabelecer um máximo de 16% vol. graduação mais apropriada para vinhos licorosos. O correto teria sido aumentar a graduação dos vinhos Finos em geral para 15% vol e estava resolvida a questão. Sobre os teores de açúcares deveria ser somente seco.

A própria Instrução parece admiti-lo ao estabelecer em seu artigo 108 que “as bebidas alcoólicas, exceto as fermentadas, com graduação alcoólica superior a 15% vol. poderão conter em sua rotulagem a expressão bebida alcoólica espirituosa”.

Na minha opinião, com esta Instrução Normativa foi perdida uma grande oportunidade para estabelecer regras de “superação”.

A opção foi legalizar o comodismo e manter a oferta de vinhos nacionais mais confusa o que a meu ver é um tiro no pé.

Também se perdeu a oportunidade de classificar os vinhos das novas tendências conhecidos como Orgânicos, Naturais, Biodinâmicos, etc.
Estabelecer regras, padrões em especial em relação ao uso de SO2, etc. Hoje a liberdade é total e não há parâmetros igualando bons produtores dos aproveitadores.

Analisemos todas as novas categorias:

Reservado: categoria absolutamente dispensável porque só cria confusão, nada agrega e parece ter sido feita para dar cobertura à montanha de vinhos chilenos que chegam com essa categoria proibida em quase todos os países do mundo.
Mostra que os critérios não foram nada técnicos.

Reserva: Começa errada ao estabelecer somente 11% vol. como graduação alcoólica. Se nela é permitida a chaptalização de 1% vol. é porque estão admitindo fazer este tipo de vinho com uvas com açúcar potencial de 10%, verdes, inadequadas para a qualidade que se espera de um vinho Reserva.
A graduação mínima exigida deveria ser entre 12,5 e 13% vol. e proibida a chaptalização (verdadeiro freio da qualidade superior).

Continua errada ao exigir somente um “envelhecimento” de 12 meses para os tintos e 6 para os brancos. Significa dizer que todo vinho poderá ser considerado nesta categoria após um ano de elaborado. Ridículo, TODOS OS VINHOS PASSARÃO A SER RESERVAS e a categoria perderá todo e qualquer valor.

Vejamos como a Espanha, pais no qual esta classificação é mais clara, os define:

Reserva: vinhos envelhecidos por pelo menos 36 meses sendo no mínimo 12 meses em barricas de carvalho.
Ou seja, os vinhos Reserva tem de ser mais maturados e envelhecidos o que os leva a ser mais encorpados, robustos, alcoólicos.

GRAN RESERVA: acompanha o equívoco começado no RESERVA.

Na Espanha, são 60 meses sendo que 18 nas barricas. No Brasil, 18 meses total, sendo 6 em barricas. Ridículo, continuaremos tendo uma legislação permissiva e fraca, infelizmente.

Não achei, e se alguém sabe agradecerei me informe, como serão controlados os prazos estabelecidos de maturação e envelhecimento.
Seria muito bom se o Ministério credenciasse uma ou mais empresas certificadoras para que fossem as responsáveis de controlar estes prazos.
Se não o consumidor continuará sendo vítima dos aproveitadores.

Se a classificação dos vinhos não é estímulo à superação de viticultores e vinicultores, procurando menor produtividade, uvas mais sadias e maduras e métodos de elaboração com ciclos mais longos onde sabidamente o vinho ganha complexidade, amabilidade e firmeza, o resultado continuará sendo mediano, haverá avanços qualitativos somente nos vinhos produzidos por vinícolas sérias, que procuram incessantemente a qualidade superior.

Mas infelizmente, devido a legislação fraca, seus produtos serão “igualados” aos de produtores inescrupulosos que utilizam todo e qualquer mecanismo para oferecer vinhos baratos, gostosinhos, com sabores e aromas de chocolate, melosos, biônicos.

Estes continuarão usando os habituais chips que se transformam em românticas barricas em seus charmosos rótulos.

Acorda vitivinicultura do Brasil!!!

quinta-feira, 1 de março de 2018

Beber e apreciar




Meu livro "Vinhos e Espumantes, elaboração, degustação e serviço" editado em 1996, foi resultante das apostilas e lâminas de retroprojetor (alguém lembra deste equipamento revolucionário na época para dar aulas?) acumuladas desde 1988 nos Cursos de Degustação organizados na sede da Cantina De Lantier em Garibaldi.

Foram anos magníficos do despertar da curiosidade do brasileiro em relação aos "tabus e mistérios" que envolviam o vinho.
Entendi que minha missão seria desmistificar estes conceitos que, a meu ver, distanciavam o consumidor do vinho, o amedrontavam, o tornavam vítima do dessaber.

Naquela época já insistia que o vinho não tem mistérios, é natural, é da terra, é da região com seu clima e características, é feito pelo homem auxiliado pela natureza. Destacava que justamente por ser da terra, da região, era diferente das outras bebidas por ser diferente entre si.

Como achar melhor um Cabernet Sauvignon importado do que um nacional?
Nem melhor nem pior, diferentes.

E esse é o maior valor do vinho, ser capaz de ser diferente pela uva, pela região, pela idade, pela técnica de elaboração, pela decisão indiscutível do enólogo ao engarrafa-lo.

Complicado? Não, amplo, desafiador, infinitamente variável.

Gosta de produtos mais padronizados, mais "iguais"?
Quem sabe não bebe refrigerantes ou as bebidas fabricadas?

O vinho é elaborado.

Ante este desafio que é falar de um produto tão simples, mas tão variável, nós responsáveis pela divulgação do vinho e dos espumantes, temos de fazer todo o possível para não complicar com regras rígidas, sejam operacionais (temperatura, tipo de copo, decanter, arejamento, horário, harmonização, etc.) ou de postura (como tomar o copo, quanto encher, como cheirar, como engolir, bla, bla, bla.). Não é a única forma de beber vinho.

Em meu livro em 1996 já recomendava separar o ato de "tomar vinho" do ato de "apreciar vinho". Faze-lo nos ajudará a sair da camisa de força que alguns "prêmios nobels" da enologia insistem em nos colocar.

Simplifique o ato rotineiro de "tomar vinho"

Ou seja, beba vinho na hora que quiser, no copo que tiver, misturado ou não.
O vinho é e sempre será a única bebida capaz de satisfazer a sede do corpo e da alma.

Devemos lembrar que o consumo de vinho diluído ou misturado com água e/ou gelo permite a alguns países tradicionais manter elevado o consumo per capita e ainda educa o paladar aos sabores típicos do vinho.

Alguma vez experimentou o refresco de vinho (com água gaseificada e gelo) num dia quente, como substituto de uma eventual cerveja?

Nunca esquecerei quando nas visitas que fazia a minha família lá pelos anos oitenta, tinha encontros com meu cunhado Diego, longos, demorados, lentos, ao redor da mesa familiar onde repousava um garrafão de Malbec comprado por "chirolas" no armazém da esquina.

O bebíamos com naturalidade, num copo de vidro parecido aos de geleia, acompanhado de um pão caseiro dividido com a mão, um queijo "fresco" e um salame cortados a faca.
Eram horas e horas, divertidas, alegres, que passavam sem perceber.
O vinho? "Um malbec, se faltar pego outro garrafão" dizia o Diego.

Valorize o ato especial de "apreciar um vinho"


Reserve para estas ocasiões as pequenas regras que permitirão aproveitá-lo ao máximo.
Neste caso sim são importantes tipo e tamanho do copo, temperatura correta, abertura antecipada, sequência correta, etc.

Saber apreciar vinhos exige um mínimo de investimento pessoal, como tempo, dedicação, interesse e, principalmente, humildade para nunca achar que já conhece tudo.

O caminho passa invariavelmente pelo consumo habitual, quase diário.

Proporcione ao vinho as mínimas condições para que possa lhe oferecer o melhor de si.

Certamente jamais se arrependerá disso.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Se queremos, conseguimos





Na postagem "Está difícil" eu não culpei as redes de supermercados e os e-commerce pela situação, até porque elas devem cuidar de seus negócios e aproveitar todas as oportunidades. Para isso existem.

Se o mercado cresceu 25,55%, na minha opinião é porque tem mais gente bebendo vinho, não são os mesmos bebendo mais vinho e isso se deve à ação de redes e e-commerce. Mérito deles, lição para nós.

Quando falei de "marca diabo", me referi a que até anos atrás o que mais se via nas prateleiras eram as marcas mais famosas e tradicionais como Concha e Toro, Casillero del Diablo, Santa Ana, etc. Hoje se encontram marcas novas muitas delas das próprias redes e totalmente desconhecidas, sem tradição.

Isto nos deixa algumas lições que a meu ver são:

1. - É possível aumentar o tamanho do mercado. O brasileiro que aparentemente pouco conhece e pouco bebe, quer conhecer e quer beber. Temos de atende-lo oferecendo condições atrativas para seu bolso e seu paladar. O novo consumidor é atraído pelo status do vinho, pelo aspecto cultural.

2. - Marca conhecida não é, neste momento, garantia de vendas: Para o novo consumidor que está entrando no mercado, o nome famoso, a marca tradicional pouco importam. Ele quer preço accessível e produto confiável.

3. - Falar simples é fundamental: Precisamos parar de "assustar" as pessoas com discursos complicados, descrições sofisticadas, regras rígidas, condições de serviço inatingíveis, frescuras...

4. - Consumo diário garante futuro: Precisamos trabalhar para introduzir o vinho nos lares, fazer com que ele forme parte dos hábitos gastronômicos, da mesa diária, da reunião de amigos, dos churrascos, da família em torno da mesa.

5. - Democratizar a embalagem: Precisamos trabalhar embalagens "económicas" como o bag-in-box, o Magnum que democratizam o vinho e o colocam ao alcance de mais pessoas.

6. - Mais varietais e menos ícones e premium: Precisamos parar de "viajar" com preços absurdos em alguns vinhos. Falamos demais deles e de menos nos mais competitivos. Quando digo que meu vinho diário é o Chardonnay Varietal Aurora que adquiro a menos de R$ 30,00 num supermercado, as pessoas não acreditam que existam vinhos brasileiros de qualidade nessa faixa de preço. Há, mas são pouco falados. Insistindo em falar somente nos "grandes vinhos" damos razão às pessoas que afirmam que o vinho brasileiro quando é bom é caro.

Precisamos oferecer ao mercado novo, produtos mais competitivos, com boa relação preço qualidade. A festa dos vinhos com preços abaixo de R$ 20,00 vai acabar, não se sustenta. Por isso não deve balizar os preços de todos os vinhos, mas na situação atual o fator preço está pesando demais na decisão. Devemos entender que a época não recomenda exageros.

Todos os povos, as regiões, as comunidades que passaram por dificuldades extremas como guerras ou conflitos, ao fim delas, se convenceram que a união é a condição básica para superá-las.

Felizmente não estamos em guerra, mas é evidente que o setor tem de refletir sobre o futuro que lhe será reservado.

Os números são preocupantes e desafiadores. Preocupantes porque a participação caiu, desafiadores, porque demonstraram que poderá haver espaço para todos.

É chegada a hora da união. Chega de estimular o enfrentamento entre grandes e pequenos, chega de achar que o meu é melhor, é único, é mais natural que o do vizinho.

Não podemos esquecer que o vinho é conhecido como a "bebida dos povos", da fraternidade, da amizade, da cultura.

Só conseguiremos participar ativamente do promissor mercado de vinhos brasileiro deixando de lado todo individualismo, arrogância e soberba.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Está difícil



O que estava feio, ficou pior.

Os números finais dos volumes comercializados de vinhos no mercado brasileiro em 2017, mostram um resultado verdadeiramente desolador.

Vamos aos números: o volume total, somando nacionais e importados, cresceu 25,55% passando de 107 milhões para 134,4 milhões de litros o que é verdadeiramente fantástico. Há muito tempo que o mercado no apresentava crescimento desta magnitude.
O ruim é que este aumento foi exclusivamente dos vinhos importados que cresceram 35% (!!).

Infelizmente os vinhos nacionais diminuíram o volume em quase 19%.

A participação dos vinhos de fora que era de 82% agora é de 88%. Para os nacionais sobrou somente 12%.

Ou seja, a cada 100 garrafas de vinhos finos bebidas no Brasil, quase 90 são importadas.

França triplicou o volume, Espanha cresceu 65%, Itália 45%, Portugal 50%.

Chile continua sendo o campeão com 43% do volume total de importados chegando a quase 5,7 milhões de caixas de 12 unidades ou mais de 51 milhões de litros.

Este salto das importações é devido, principalmente, pela ação forte das grandes redes de supermercado e os e-commerce.

Alguns sites oferecem vinhos a preços muito atrativos e os supermercados estão fazendo a festa, com a importação diretas de cantinas pouco conhecidas às quais pagam menos de dois dólares por garrafa.
Com isso o mercado se encheu de vinhos marca diabo, a preços muito atrativos.

Mendoza está enfrentando uma forte crise e imagino que o Chile vai entrar numa. Não há como sustentar negócios onde não se cobrem os custos.

Como explicar o custo no país de origem de um vinho tinto chileno que um supermercado de Porto Alegre vende a menos de R$ 16,00 na compra de 3 unidades?

Se a esse valor descontamos a margem da rede (20%?), mais de 30% de impostos, o frete, os custos operacionais, a margem do produtor, os insumos como rolha, garrafa, cápsula e rótulo, provavelmente não sobra nada para remunerar a uva.
Ou seja, o que é excelente para o consumidor e excelente para o atravessador, pode não ser tão bom para quem produz e isso pode ocasionar a "morte prematura da galinha dos ovos de ouro".

Infelizmente no Brasil os produtores pagamos caríssimo uma garrafa para vinho ou espumante devido ao quase monopólio, pagamos caríssimo uma rolha devido aos impostos de importação da matéria prima, pagamos caro o frete devido ao custo dos pedágios e ao estado calamitoso das estradas, pagamos imposto a partir da colheita da uva, etc.

Me arrisco em afirmar que para que todos tenham algum resultado, produtor de uva, produtor de vinho e comerciante ou intermediário, pagando impostos e encargos como manda a lei, um vinho fino, não reserva, tem de ser vendido ao preço final de pelo menos R$ 30,00.

Abaixo disto, alguém está abrindo mão de sua rentabilidade. Geralmente é o produtor.

A solução passa por baixar preços aumentando produtividade e ignorando a qualidade?
Com certeza não, a solução é continuar produzindo qualidade a preços justos ignorando as ofertas de ocasião.

Buscar o cliente que escolhe, primeiro pela qualidade e confiabilidade dos produtos, depois pelo preço justo em relação aos praticados pelos concorrentes da mesma categoria.

É fácil? Não, mas talvez seja o único caminho.

Fonte dos números: IBRAVIN - Instituto Brasileiro do Vinho

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Vamos beber bem?




O momento é adequado porque estamos nos aproximando das Festas de Fim de Ano que trazem consigo o festejo, o encontro, a alegria...e a bebida.

Quando proponho “vamos beber bem”, não estou me referindo ao tipo ou qualidade das bebidas, ao final cada um tem seu conceito de qualidade. Me refiro ao modo de beber.

O vinho e os espumantes são bebidas com mediana graduação alcoólica e extraídos de uma fruta que aporta aromas e sabores diferenciados. A maturação e o envelhecimento somam características únicas que agradam, encantam, cativam. Esta mediana graduação alcoólica é fundamental porque permite ao apreciador, sentir facilmente essas diferenças. E esta é a grande diferença com outras bebidas mais agressivas devido ao álcool, como os destilados.

Beber com prazer, sem excessos, sem consequências desagradáveis no dia seguinte, sem mal-estares, é uma tarefa que exige alguns cuidados. Mas no período das festas, os encontros com familiares ou amigos, são propícios aos excessos.

Se você for o anfitrião a responsabilidade aumenta já que será quem “comanda o espetáculo”. Não queira mostrar sua adega toda numa única noite. Conduza o fluxo de alimentos e bebidas adequadamente protegendo seus convidados, procurando, com discrição transformar o encontro numa noite inesquecível.

Vamos às recomendações:

Beba com moderação: Este conceito é totalmente subjetivo, depende de cada pessoa. Se você quer aprender a beber, comece por se observar, ficar atento a seu limite. Tem pessoas que suportam mais, outras menos. Saiba o seu e respeite-lo.

Não misture: Destilados e fermentados não se dão bem, por isso os cuidados devem ser redobrados. Melhor não os misturar. Esqueça das “entradas longas” com vodca, caipirinha, whisky, vermute, rum, etc. São explosivas e induzem ao desastre.

Beba devagar: Os afobados são péssimos bebedores. Travam a língua com incrível rapidez. A bebida deve ser saboreada, apreciada, não engolida.

Beba água: A água ocupa espaço, hidrata e limpa o paladar. Beba em abundância ainda que isso o leve à toalete mais vezes que você gostaria. Prefira água sem gás e não muito gelada.

Acompanhe com alimentos: Isto é fundamental. Nada pior que bebida em estomago vazio. E não precisa complicar, uma torrada, um pão, um queijo, um prato simples tanto quanto um sofisticado, são excelentes companheiros. Beba devagar, comendo, coma devagar, bebendo.

Respeite a ordem: Os vinhos e espumantes, quanto mais maduros ou envelhecidos, mais intensos são de aromas e sabor. Por isso procure iniciar com os mais jovens e no caso dos espumantes, pelos elaborados pelo método charmat. São mais frescos e ligeiros. Depois dedique sua atenção aos mais maduros, produzidos pelo método tradicional.

Evite excesso de variáveis: Se você for o anfitrião, preste atenção neste item.

Alertamos para a sequencia que diferencia uma noite exitosa de uma noite de terror

- Servir somente espumantes – Fantástico, todos ficarão felizes e leves.

- Um espumante e um vinho, branco ou tinto – Perfeita combinação.

- Um espumante, um vinho branco e depois um tinto – Muito boa, com cuidados nas quantidades.

- Um espumante, um vinho branco, um tinto e licor ao final – Grandes chances de resultar em dores de cabeça e mal-estar no dia seguinte.

- Caipirinha de entrada, seguida de um espumante, um vinho branco, um vinho tinto e arrematando com licor – Infalível para recepcionar amigos indesejados, parentes chatos e inimigos. – Mantenha uma UTI móvel de prontidão.

domingo, 22 de outubro de 2017

Meu branco preferido



Confeso que meu hábito de beber espumantes me levou a preferir os vinhos brancos aos tintos. Talvez por ter me acostumado a leveza e ao frescor.
Os tintos, além de oferecer mais risco na compra pela excessiva oferta de vinhos muito jovens e carregados de carvalho, são mais limitados na harmonização.

Detesto brancos nos quais a presença de carvalho, via chips ou barrica, predomina e impede a fruta e o caráter varietal se sobressaírem.

Também tenho dificuldades em consumir produtos com preço elevado que para mim significa superiores a R$ 50,00 - R$ 60,00. Sei que quanto menor a faixa menor é o valor que as pessoas atribuem ao produto mas comigo essa premissa não funciona.

Gosto de garimpar e a minha procura acaba quando acho um vinho confiável. Porque como sempre disse, comprar vinhos é um ato de risco.

Dito isto, e superando uma velha dificuldade resultante da interferencia de uma senhora chamada "ética profissional", vou falar de um vinho que consumo frequentemente quando não bebo meus espumantes...nos quais confio cem por cento.

É o Chardonnay Varietal Aurora, sempre igual (porque Aurora respeita a disciplina), sempre correto, sempre fresco (porque gira), sempre com preço perfeito, inferior a R$ 30,00 nos supermercados e R$ 40,00 nos restaurantes como mostra a Carta acima.

Atenção, é o varietal, porque o Reserva passa por carvalho e para mim, perde um pouco a graça.

Agora que chega o verão vou repetir um velho hábito que as vezes espanta os "especialistas": levar à beira da praia uma garrafa deste Chardonnay a temperatura ambiente, verte-lo num copo de bom tamanho e adicionar duas ou três grandes pedras de gelo. Ele parece acordar, abrir os olhos, os aromas, o sabor e se oferecer radiante, saboroso, leve, convidativo.

O céu será mais azul, o mar mais cristalino, você e suas companhias, mais felizes.

Se conseguir superar a mania de achar que o vinho exige ceremonia, ambiente especial ou formalidade, experimente. E depois me conte.

sábado, 7 de outubro de 2017

Aço, barrica, tonel...segunda parte.



O tema aço inoxidável, barrica e tonel dá para muito. Volto com ele porque é atualíssimo. Farei o que estiver a meu alcance para mudar, ainda que minimamente, a predominância deste binómio. Minha experiência, que conto abaixo, e minha visão do momento atual, me obrigam a faze-lo.

Na minha longa carreira de enologia que iniciou na década de sessenta na Bodega Arizu em Mendoza, na Argentina, tive a sorte de ir aprendendo e entendendo a cada dia, a maravilhosa missão da “elaboração”. Porque os vinhos não se fabricam, se elaboram, se criam, se transformam, se modelam, se aperfeiçoam.

Em Arizu tive a privilegio de conviver com um dos mais respeitados enólogos argentinos: Don Raul de la Mota. Don Raul, como o chamávamos carinhosamente, praticava a enologia sábia, reflexiva, respeitosa, onde o tempo e a boa madeira eram aliados insuperáveis.

Os vinhos, provenientes de uvas maturadas sem exageros, sadias, frescas, repousavam durante demorados anos, em toneis de carvalho da Eslovênia de tamanhos variáveis mas não inferiores a 1.500 litros. Neles, os vinhos maturavam devagar, incorporando migalhas de oxigênio, ganhando caráter, maciez, elegância.

Mendoza teve, no inicio do Século XX, acesso a boa madeira pelas mãos de uma família de tanoeiros da Eslovênia chamada Bajda que chegou a Mendoza após a Segunda Guerra. Nessa época não se pensava em recipientes menores como as barricas, tão em uso nos dias atuais.

Na minha chegada ao Rio Grande do Sul já na década de setenta, a realidade foi outra. A madeira usada era a local, amendoim, grapia e pinho. O inoxidável era inviável pelo alto custo e a barrica impensável. Descobrimos alguns anos depois que as pipas de pinho e grapia, quando não devidamente parafinadas à quente, transmitiam gosto amargo e resinoso.

Logo depois, chegou o aço carbono revestido de tinta epóxi, a novidade da época que permitia conservar os vinhos, em especial brancos, em recipientes inertes. Era a fase da busca de brancos frutados, limpos, delicados. Foi necessário buscar algum gás inerte para manter a superfície impecável e o nitrogênio foi o escolhido. Tempo depois descobrimos que ao absorver o carbônico naturalmente presente nestes vinhos, o nitrogênio deixava os brancos meios “chatos”, planos, com poucos aromas. Veio a mistura, CO2 e N2 e o problema acabou.

Quando os preços ficaram menos pesados foi a vez da chegada do aço inoxidável, agora com cintas para refrigeração, fantásticos. Para nós enólogos empenhados em brancos saborosos era a perfeição na forma de tecnologia. Tínhamos vencido uma etapa brava.

Já nos anos oitenta, quando o objetivo era elaborar um “vinho tinto de guarda”, que desafiasse o tempo, foi inevitável pensar nos tintos de Bordeaux, robustos, maturados e envelhecidos por longos períodos.

Foi a vez da madeira mais nobre, o carvalho e no formato mais adequado, a barrica de 225 litros.

Carvalho americano ou francês? Só uma prova com 50 barricas de cada tipo importadas especialmente nos permitiu concluir que nada substituía o francês, mais intenso, refinado, delicado.

Mas de que florestas, de que granulometria, que grau de porosidade?

A decisão foi Never e Alliers, as medianamente porosas, evitando as feitas com duelas serradas, para evitar vazamentos.

A partir daí parece que o binômio aço inoxidável / barrica se transformou na fórmula mágica para elaborar vinhos tintos de qualidade.

O que quero discutir é se isso é suficiente, se é assim que se atinge qualidade superior.

Me preocupa, em especial nos novos empreendimentos nos quais o “retorno de capital” é calculado em planilhas, matematicamente, a variável TEMPO não seja considerada fundamental.

E aí volta a minha memória a importância do recipiente de madeira de maior tamanho. Porque?

A barrica é fantástica, mas pelo pequeno tamanho os vinhos que passam por ela devem depois, necessariamente, serem envelhecidos na garrafa por menos um ano. Caso contrário o aroma e sabor do carvalho abafará a tipicidade, o caráter varietal, a naturalidade do vinho.

Carvalho muito marcante cansa, satura, impregna e muitas vezes a barrica se nivela aos chips. Se não houver paciência ou capital ou vontade de envelhecer o vinho antes de comercializa-lo, é melhor evitar a barrica nova por longos períodos.

O inoxidável é fantástico, neutro, protetor, seguro, mas impede a maturação que deve ser feita, nestes casos, através de sucessivas trasfegas com as consequências que conhecemos.

Acho que, repetindo minhas palavras do inicio deste artigo, continuo aprendendo, observando e entendendo.

Seria ótimo dar mais importância à madeira de carvalho de maior volume, superior a 1 ou 2 mil litros. Guardar vinhos tintos nestes recipientes ao longo dos anos permitirá voltar um pouco aos velhos tempos onde a corrida era pela qualidade, pelo sabor cativante, convidativo, onde a casta comandava o espetáculo.

Menos álcool, menos madeira, menos fruta, mas sim UM POUCO DE TODOS.

Os Bajda ainda estão em Mendoza produzindo toneis, redondos, ovais, lindos, práticos e eficientes.

Quem sabe alguém tome a dianteira?