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sábado, 7 de outubro de 2017

Aço, barrica, tonel...segunda parte.



O tema aço inoxidável, barrica e tonel dá para muito. Volto com ele porque é atualíssimo. Farei o que estiver a meu alcance para mudar, ainda que minimamente, a predominância deste binómio. Minha experiência, que conto abaixo, e minha visão do momento atual, me obrigam a faze-lo.

Na minha longa carreira de enologia que iniciou na década de sessenta na Bodega Arizu em Mendoza, na Argentina, tive a sorte de ir aprendendo e entendendo a cada dia, a maravilhosa missão da “elaboração”. Porque os vinhos não se fabricam, se elaboram, se criam, se transformam, se modelam, se aperfeiçoam.

Em Arizu tive a privilegio de conviver com um dos mais respeitados enólogos argentinos: Don Raul de la Mota. Don Raul, como o chamávamos carinhosamente, praticava a enologia sábia, reflexiva, respeitosa, onde o tempo e a boa madeira eram aliados insuperáveis.

Os vinhos, provenientes de uvas maturadas sem exageros, sadias, frescas, repousavam durante demorados anos, em toneis de carvalho da Eslovênia de tamanhos variáveis mas não inferiores a 1.500 litros. Neles, os vinhos maturavam devagar, incorporando migalhas de oxigênio, ganhando caráter, maciez, elegância.

Mendoza teve, no inicio do Século XX, acesso a boa madeira pelas mãos de uma família de tanoeiros da Eslovênia chamada Bajda que chegou a Mendoza após a Segunda Guerra. Nessa época não se pensava em recipientes menores como as barricas, tão em uso nos dias atuais.

Na minha chegada ao Rio Grande do Sul já na década de setenta, a realidade foi outra. A madeira usada era a local, amendoim, grapia e pinho. O inoxidável era inviável pelo alto custo e a barrica impensável. Descobrimos alguns anos depois que as pipas de pinho e grapia, quando não devidamente parafinadas à quente, transmitiam gosto amargo e resinoso.

Logo depois, chegou o aço carbono revestido de tinta epóxi, a novidade da época que permitia conservar os vinhos, em especial brancos, em recipientes inertes. Era a fase da busca de brancos frutados, limpos, delicados. Foi necessário buscar algum gás inerte para manter a superfície impecável e o nitrogênio foi o escolhido. Tempo depois descobrimos que ao absorver o carbônico naturalmente presente nestes vinhos, o nitrogênio deixava os brancos meios “chatos”, planos, com poucos aromas. Veio a mistura, CO2 e N2 e o problema acabou.

Quando os preços ficaram menos pesados foi a vez da chegada do aço inoxidável, agora com cintas para refrigeração, fantásticos. Para nós enólogos empenhados em brancos saborosos era a perfeição na forma de tecnologia. Tínhamos vencido uma etapa brava.

Já nos anos oitenta, quando o objetivo era elaborar um “vinho tinto de guarda”, que desafiasse o tempo, foi inevitável pensar nos tintos de Bordeaux, robustos, maturados e envelhecidos por longos períodos.

Foi a vez da madeira mais nobre, o carvalho e no formato mais adequado, a barrica de 225 litros.

Carvalho americano ou francês? Só uma prova com 50 barricas de cada tipo importadas especialmente nos permitiu concluir que nada substituía o francês, mais intenso, refinado, delicado.

Mas de que florestas, de que granulometria, que grau de porosidade?

A decisão foi Never e Alliers, as medianamente porosas, evitando as feitas com duelas serradas, para evitar vazamentos.

A partir daí parece que o binômio aço inoxidável / barrica se transformou na fórmula mágica para elaborar vinhos tintos de qualidade.

O que quero discutir é se isso é suficiente, se é assim que se atinge qualidade superior.

Me preocupa, em especial nos novos empreendimentos nos quais o “retorno de capital” é calculado em planilhas, matematicamente, a variável TEMPO não seja considerada fundamental.

E aí volta a minha memória a importância do recipiente de madeira de maior tamanho. Porque?

A barrica é fantástica, mas pelo pequeno tamanho os vinhos que passam por ela devem depois, necessariamente, serem envelhecidos na garrafa por menos um ano. Caso contrário o aroma e sabor do carvalho abafará a tipicidade, o caráter varietal, a naturalidade do vinho.

Carvalho muito marcante cansa, satura, impregna e muitas vezes a barrica se nivela aos chips. Se não houver paciência ou capital ou vontade de envelhecer o vinho antes de comercializa-lo, é melhor evitar a barrica nova por longos períodos.

O inoxidável é fantástico, neutro, protetor, seguro, mas impede a maturação que deve ser feita, nestes casos, através de sucessivas trasfegas com as consequências que conhecemos.

Acho que, repetindo minhas palavras do inicio deste artigo, continuo aprendendo, observando e entendendo.

Seria ótimo dar mais importância à madeira de carvalho de maior volume, superior a 1 ou 2 mil litros. Guardar vinhos tintos nestes recipientes ao longo dos anos permitirá voltar um pouco aos velhos tempos onde a corrida era pela qualidade, pelo sabor cativante, convidativo, onde a casta comandava o espetáculo.

Menos álcool, menos madeira, menos fruta, mas sim UM POUCO DE TODOS.

Os Bajda ainda estão em Mendoza produzindo toneis, redondos, ovais, lindos, práticos e eficientes.

Quem sabe alguém tome a dianteira?

sábado, 30 de setembro de 2017

Cantinas frias, vinhos sem alma



Em recente visita a Mendoza com uns amigos, tive de adquirir vinhos para um churrasco ao qual fomos convidados. Fomos ao Carrefour por entendermos que acharíamos uma boa variedade, o que facilitaria a compra.

Procurávamos vinhos Malbec de pelo menos dois ou três anos. Ficamos estarrecidos já que 80% da oferta era de vinhos de 2017, com menos de seis meses de vida. Perdidas na multidão achamos algumas garrafas de vinhos 2015 e 2016 mas por curiosidade levamos um 2017.

Tratava-se de um vinho leve ao extremo, sem aromas, sem sabor, sem alma. Alguns produtores, descaradamente, assassinam a variedade mais representativa de Mendoza, oferecendo, na procura do retorno fácil do investimento, um suco/vinho sem graça.

Na minha opinião, com essa atitude de desrespeito ao consumidor e à enologia clássica, cavam sua própria fossa.

Andando pelas regiões produtoras e visitando algumas vinícolas novas comecei a entender o porque desta situação.
Vi cantinas onde sobra cimento e falta madeira, sobra granito e falta chão batido, sobram luzes decorativas e falta semiescuridão, sobra aço inoxidável e barricas e faltam toneis antigos de carvalho. Falta alma, sentimento, paixão, paciência.

E os vinhos são reflexo disso.

Sei que os turistas adquirem vinhos em lojas especializadas onde pagam caro por vinhos mais maturados, mais dignos, mas é inegável que a queda de consumo na Argentina continuará.

O vinho para consumo caseiro, disponível em preço e oferta, deve ter um mínimo de caráter, estrutura, personalidade para atrair a juventude que caminha para outras bebidas.

Tenho uma profunda saudade da “velha enologia”, da praticada por Raul de la Mota com o qual tive o privilegio de trabalhar na Bodega Arizu. Nesta bodega todos os vinhos tintos eram estacionados em toneis de diferentes tamanhos, medios e grandes, de carvalho da Eslovênia, de muito uso. Passavam pelo menos dois anos antes de serem liberados ao consumo. Saiam adequadamente maturados, macios, saborosos, soberbos.

Felizmente existem pessoas e empresas que mantem viva esta filosofia de trabalho. Posso citar alguns como Angel Mendoza meu colega de Don Bosco, Carmelo Patti com seus vinhos únicos, a Bodega Cave Weinert feita pelo brasileiro Bernardo Weinert com a ajuda magnífica de Don Raul de la Mota, a Bodega Lopez que é uma das mais tradicionais e respeitadas vinícolas mendocinas e outros.

Nesta enologia como falei acima, a madeira cumpre um papel fundamental na elaboração de vinhos tintos, em especial os de guarda. Hoje, nas cantinas novas, a madeira se restringe às barricas de 225 litros, de carvalho francês ou americano, novas.

Parece não existir outras alternativas que não sejam recipientes de grande volume em inoxidável ou barricas.

Na “fabricação” de vinhos de consumo rápido ou de menor preço vale a utilização de chips, micro oxigenação mecânica, gomas, taninos e outras cositas mais.

Antes, a madeira de grande volume cumpria a função de maturar lentamente os vinhos sem aportar aromas e gostos acentuados de carvalho.
O tempo era o maior aliado.
Hoje, o tempo é inimigo do resultado financeiro, do retorno do capital investido.

Espero que possamos voltar um pouco aos velhos tempos, que os investidores entendam que na vitivinicultura o retorno financeiro chegará lentamente, na forma de magníficos vinhos, de muita paixão, de muito orgulho, de muitas garrafas compartidas, de muitos momentos únicos, inesquecíveis.

Que saibam que neste tipo de empreendimento, a pressa sim é inimiga da perfeição.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Descomplicando




Em recente visita a nosso distribuidor em BH, Casa Rio Verde, fiquei gratamente surpreso pela forma criativa que utilizaram para apresentar os vinhos e espumantes nas prateleiras das cinco lojas: por estilo.

Vinhos tintos mais leves para o dia a dia, tintos macios, tintos intensos e tintos complexos. Espumantes frutados (charmat) e complexos (tradicional).

Foi um trabalho de equipe que resultou observando a atitude dos clientes no momento da (in)decisão na escolha do produto a adquirir.

Sem analisar se esta forma é a ideal, se poderia ser diferente, temos de concordar que é uma maneira original de descomplicar o vinho, tirando regiões, safras, castas, cuvèes, indicações, denominações e demais variáveis que confundem, amedrontam, assustam o consumidor.

A indústria vitivinícola precisa entender que o consumidor brasileiro é um novo aficionado, que nada sabe, que precisa ser educado e para isso precisa beber.

É fundamental atrair pessoas que hoje consomem outras bebidas para ampliar o mercado e principalmente criar o hábito do consumo.

Como não ficar amedrontado na frente de uma prateleira na qual há centenas de vinhos de diferentes países, regiões, sub-regiões, variedades, safras, etc?

Como não ficar assustado quando precisa decidir se adquire Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Pinot Noir, Egiodola, Teroldego, Malbec, Carmenere, Barbera, Tannat, Gamay, Syrah, Tempranillo, Carignan, Bonarda, etc. etc?

Sem pensar nas outras tantas de variedades brancas.

Com madeira, sem madeira, safra nova ou safra antiga?

Mais fácil passar para a prateleira das cervejas, rápido, porque também está começando a ficar complicada.

Sem sombra de dúvida que a maior riqueza do vinho é a sua forte ligação com a terra e com a casta com a qual foi feito, sua capacidade de melhorar com o tempo, de ser diferente, único.

É importante ressaltar isso e valoriza-lo, mas será que toda esta complexidade precisa estar na recepção, na porta de entrada do novo consumidor?

Recordo que anos atrás, o Ibravin estudou a possibilidade de colocar em prática um programa de cursos de introdução ao vinho, abrangendo o maior número possível de capitais e grandes cidades.

Cursos simples, introdutórios, didáticos, direcionados a pessoas atraídas pelo vinho mas sem conhecimentos. Através destes cursos iriam sendo criadas “confrarias” nas quais posteriormente seriam oferecidos cursos mais abrangentes. O diferencial era que seriam dados por pessoas locais preparadas por profissionais especializados, de modo a dar permanência e sabor local ao projeto.

Infelizmente a ideia foi abandonada.

Enquanto não há recursos para divulgação da “instituição vinho” de forma massiva, é necessário e importante o trabalho de formiga, lento, localizado, efetivo, focado.

É necessário achar formas para atrair novos consumidores e não fazer as mesmas a cada ano direcionadas aos que já consomem. Muitos destes já se decidiram pelo importado.

Grandes ações do tipo “tiro de canhão” são efêmeras e custosas.

O vinho brasileiro merece e precisa ganhar novos adeptos ou continuará sendo relegado ao papel menor que hoje ocupa.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O Brasil consumidor




Num estudo iniciado em 2004 chamado Visão 2025 se colocava, como desafio possível, um aumento até esse ano, do consumo de vinhos e espumantes de 1,8 litros/ano por habitante para 9 litros.

As ações propostas eram nas áreas de tecnologia, mercado, legislação e logística com seus respectivos projetos e subprodutos.

Claro que estimar um crescimento tão grande no consumo por habitante foi um exercício de futurologia que tinha pouco de real.

Mais uma vez se concretizou uma velha realidade: o papel aceita tudo, planejar é uma coisa, executar é outra.

De 2000 a 2015, o consumo caiu ligeiramente e nos mantemos no constrangedor consumo inferior a 2 litros anuais.

Mais que um projeto foi um sono, que não se transformou em realidade, porque pouquíssimo do que foi proposto, foi feito ou conseguido. Para citar um exemplo de uma variável fundamental, a carga tributária aumentou consideravelmente assim como reduzidos os prazos para pagamento dos mesmos. Isto tirou competitividade afetando o desempenho.

Creio que o principal problema do baixo consumo é cultural. O brasileiro, de modo geral, não é um consumidor de vinhos porque não conhece, porque não se identifica com o produto e porque está habituado a beber outros produtos.

Todos estamos carecas de saber que uma cultura se muda ao longo dos séculos, e somente acontece quando se oferecem alternativas mas atrativas e acessíveis.

Nos países tradicionais o consumo de vinho é uma herança familiar, faz parte da cultura gastronômica. A garrafa de vinho e a cesta de pão são os primeiros a chegar na mesa. E por isso, o consumo é forte, sólido. Quem bebe uma taça por dia, consome quase 40 litros anualmente.

Que foi feito no Brasil para que o vinho faça parte da cultura dos brasileiros?
Nada, absolutamente nada.

Tens pessoas que afirmam que a cerveja não é concorrente. É concorrente sim, porque é a principal bebida “cultural” da qual o vinho terá de tirar espaço.

Infelizmente as entidades representativas do setor não percebem que é necessário iniciar um trabalho forte e constante, incansável, para atrair novos consumidores.

Atrair quem bebe cerveja, quem bebe destilados, quem nada bebe. Nenhuma bebida junta os atributos que o vinho e o espumante tem.

A diferença é que enquanto as outras investem continuamente em mídia pesada, o setor do vinho repete as velhas ações com feiras e degustações dirigidas ao mesmo público, muitas delas com o objetivo de enaltecer o produto nacional. Nestas ações o foco é ganhar espaço dos importados como se fossem eles os concorrentes.
E não são. Estão do mesmo lado, por isso é necessário juntar-se a eles para ganhar força.

Temos de aumentar o mercado, ganhar novos adeptos, abrir espaços para que todos cresçamos.

Divididos, separados, não teremos capacidade financeira para isso. Unidos e focados, talvez sim.

O setor tem de promover um grande encontro com autoridades, importadores, comerciantes e produtores nacionais e estrangeiros, com o objetivo de criar um plano a longo prazo de ampliação de mercado. Sem desconfianças, sem estrelismos, sem egoísmo.

Estarmos dispostos a investir em recursos a serem aplicados principalmente em mídia nacional, que ressalte a instituição vinho e sua relação com as pessoas.

Se não for feito isto, em 2015 continuaremos ainda com menos de 2 litros, alguns se lamentando por venderem menos, outros alegres porque venderam mais.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Viníferas ou americanas?




Sempre que o tema é relacionado às uvas produzidas no Brasil, surgem opiniões fortes de muitos que acham que a razão da baixa participação dos vinhos nossos no mercado é porque a grande maioria são produzidos com uvas da espécie Americana, as também chamadas de comuns. Pedem enfaticamente que o Brasil elimine todos os vinhedos de uvas americanas e estes cultivares sejam proibidos.

Parece fácil, mas podem ter certeza que não é.
Não depende da vontade de produtores ou entidades representativas, depende do mercado consumidor, da demanda.
É necessário mudar essas variáveis para obter mudanças lentamente, ao longo dos anos. Exige uma ação planejada a longo prazo.

Para facilitar o entendimento e evitar maiores radicalismos me permito analisar os números da colheita 2017, o destino das uvas e também o consumo de vinhos e espumantes em 2016 considerando a população aproximada com idade superior a 18 anos.

Colheita 2017

Considerada uma safra recorde, mostra que hoje são produzidos algo mais de 750 milhões de quilos sendo que quase 90% é de uvas americanas.

Quem acompanha o setor deve lembrar que esta proporção, anos atrás, era de 80%. Ou seja, se a importância das americanas era grande, agora aumentou. Ou não?

Se retiramos as uvas americanas que são transformadas em suco de uva para exportação na forma de concentrado, ou natural para o mercado interno, a proporção volta aos antigos 80%.

A este respeito é importante destacar a qualidade do suco de uva brasileiro, produzido com as uvas apropriadas que são as americanas, com sabor da uva, típico, único.
Quem já experimentou suco de uva viníferas sabe quanto tem sabor a nada.

Dito isto, podemos concluir que é absurdo pensar em erradicar a uva americana. Ela tem uma finalidade de negócios que cresce, que se desenvolve, que tem sido um apoio para muitas vinícolas ante a crise comercial dos vinhos finos. Ou seja, para alguns que não são poucos, estas uvas são solução e não problema.

Consumo de vinhos e espumantes 2016

O Brasil não é um país consumidor de vinhos, não á hábito, não há identificação com o produto.
Será algum dia chegará a consumir 15-20 litros por habitante?
Acho muito pouco provável, quase impossível, devido ao pouco esforço “inteligente” que o setor faz.

Vamos aos números.

Consumo total:

Considerando a população com idade superior a 18 anos, estimada em 170 milhões, o Brasil consome por ano/habitante, 1,97 litros. Ou seja, menos de 3 garrafas de 750 ml.

Estamos muito longe de países tradicionais como Argentina, Chile e Uruguai que consomem entre 25 e 35 litros ano e ainda de países novos como USA que já ultrapassou os 10 litros.

Este volume consumido no Brasil permanece há pelo menos 3 décadas e isso demonstra que aumentar o consumo é um desafio gigantesco.

Consumo por tipo:


A distribuição por tipo é reflexo dos diferentes consumidores que compõem este mercado.

Nada mais que 62% do total consumido corresponde a vinhos de uvas americanas, baratos, em embalagens econômicas, muitos deles doces ou demi-sec.

Nos vinhos finos de castas europeias que correspondem quase a 32%, os importados ocupam 82% do espaço e são os responsáveis do crescimento lento de mercado.

Já nos espumantes, que representam somente 6% do total, a predominância constante é dos nacionais que já atingiram 82% do total.

É possível erradicar as uvas americanas como alguns defendem?

Não, porque ninguém é louco de acabar com um negócio promissor e em constante crescimento como é o suco de uva e também não, por que há um mercado de vinhos de americanas que é necessário atender.

É possível diminuir sua importância?

Sim, fazendo que estes vinhos de americanas sejam trocados por vinhos de uvas europeias com as mesmas “virtudes”: preço baixo e farta oferta.

É possível acabar com o consumo de vinhos de americanas?

Não, porque é o mercado quem manda e porque seria estupidez, além de nefasto para os produtores.

As uvas americanas são a base da produção da maioria dos agricultores da Serra, são menos vulneráveis à intempéries, mais produtivas e tem mercado garantido.
Devemos lembrar que o perfil das propriedades é de minifúndio, explorado por famílias e sustento delas.

As uvas viníferas são mais difíceis, menos produtivas e na maioria das vezes, pessimamente remuneradas. Porque plantar mais, então?

Apesar disto há um importante aumento de área plantada de uvas finas e oferta de vinhos.
Os novos empreendimentos em especial localizados em outras regiões, iniciam com o vinhedo, sempre de viníferas. Os grandes, correspondem a empresas produtoras da Serra que buscam maior constância na qualidade e menores custos. Os pequenos iniciam produzindo em terceiros e acabam construindo cantinas modernas, enxutas, produtivas.

Isto é fantástico porque engrandece e aprimora a oferta e faz um importante trabalho institucional através do enoturismo.

Mas, na minha opinião, o furo está mais embaixo. Como não há crescimento do volume consumido, não há entrada de novos apreciadores e os existentes já estão definidos.
Ou por acaso imaginam a possibilidade de grandes “migrações”.

A solução é, e nisso sou repetitivo e insistente, aumentar o número de apreciadores, aumentar o mercado.

O consumo de 1,96 litros por ano é porque há quem consome acima de 20 litros, os que consomem algo em torno de 10 litros e uma enorme quantidade que consome menos de um litro ou nada. Pela falta de hábito, pela falta de interesse, pela falta de atrativos, pela falta de conhecimento e pela falta de muita coisa.

Havendo aumento de mercado, os novos consumidores decidirão qual produto escolher, pela origem, pela qualidade ou pelo bolso.

Com certeza para essa nova distribuição de demanda o mercado de uvas se direcionará.

Claro que para isso será necessário unir setores da uva e do vinho do Brasil e do mundo, para conseguir recursos para campanhas masivas e constantes de divulgação da instituição VINHO.
Vender suas virtudes, seus benefícios, suas histórias e sentimentos.

Será necessário, e isto será mais difícil, conseguir a união dos produtores de uva e vinho brasileiros para acabar com as disputas predatórias, do “falar mal do outro” para ganhar mercado, de usar a capacidade financeira para sufocar os pequenos e influenciar decisões das entidades representativas, de acabar com iniciativas infrutíferas ou negativas como foram o estupido selo fiscal e a fracassada tentativa de salvaguardas.

Em fim, é o setor que poderá definir seu futuro.

O futuro incerto, difícil e insuportavelmente competitivo que pouco estimula?

Ou o futuro que cria a desafiadora situação de crescimento onde qualidade e preço serão as melhores armas para participar?

Vamos refletir sobre isto?

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Receita




A facilidade com que os enochatos emitem longas e fantasiosas opiniões sobre alguns vinhos nos permite entender o alcance da sua ignorância.

É tal o grau de generalidade em seus conceitos que devem pensar que o vinho é resultado de uma receita única, fácil de aplicar, universal. E nada é mais falso.

As características de cada vinho são resultantes de duas variáveis inseparáveis: a matéria prima e a mão de quem o criou.

Estas duas variáveis, ao serem tão maravilhosamente “variáveis” constituem a verdadeira essência do vinho, um produto único, incomparável, típico, com DNA, com nome e sobrenome.

Vejam que falei características, não qualidade, para fugir da subjetividade. O que é bom para mim, pode que não o seja para outra pessoa.

A videira, apesar de ter características que a assemelham a uma trepadeira, é uma planta extremamente sensível ao tipo de solo, argiloso, pedregoso, arenoso e todas as variáveis, a sua composição química e nutricional, à topografia, etc. É sensível ao clima, mais seco ou chuvoso, às temperaturas e sua variação, à amplitude térmica, às mudanças próprias de cada estação, etc.

Todas estas alternativas resultam em diferentes condições conforme a combinação entre elas já que não sempre uma exclui a outra.

Se isso fosse pouco, podemos acrescentar que o tipo de videira não é único, existem as variedades e o tipo de planta, pé franco ou muda enxertada.

Entre as variedades existem as de ciclo vegetativo mais curto, as chamadas precoces entre as quais podemos citar Chardonnay, Pinot Noir e Cabernet Franc e as de ciclo vegetativo mais longo como Cabernet Sauvignon.

Também se diferenciam pelo potencial que possuem para produzir vinhos mais leves, como Cabernet Franc ou mais encorpados como Cabernet Sauvignon, mais frutados como Chardonnay ou aromáticos como Riesling Itálico.

Claro que dispor destas informações não é suficiente para obter bons resultados já que como dizemos inicialmente a videira é sensível a todas as variáveis, é necessário protege-la, conduzi-la, acompanha-la. Para se ter uma ideia de quanto é preocupante sua vulnerabilidade, podemos afirmar que bastam alguns dias de descuido para perder produção, qualidade ou ambos.

Tendo a matéria prima adequada as características da região, entra em jogo o “elaborador” que pode ser enólogo, engenheiro agrônomo ou simples prático, o importante é que saiba extrair dessa uva, obtida com esforço e paciência, todo seu potencial respeitando a influencia da natureza sobre ela.

O vinho é um espelho onde se reflete a figura do fazedor.

Quando é um intervencionista daqueles que seguem a receita do bolo que seduz pela rapidez e simplicidade, utilizará todo tipo de insumo, para criar um monstrengo que os ingênuos bebem e as farmácias agradecem porque proporcionam aumento dos remédios para dor de cabeça e mal-estar estomacal.

Se for um “elaborador” de verdade, deixará que a uva se manifeste, conduzirá o ciclo produtivo com atenção, sem interferências, sem presa, com calma e sabedoria.

E seu produto será admirado e saboreado ao chegar aos paladares dos que, sem serem conhecedores, reconhecem a tipicidade e honestidade de um vinho.

O parecer do enochato? Quem se importa com isso?

quinta-feira, 23 de março de 2017

Emblemática




É habitual as pessoas citarem alguns vinhos como sendo emblemáticos de determinados países, Carmenere no Chile, Malbec na Argentina, Tannat no Uruguai. Estes vinhos, que representam geralmente uma importante porcentagem do total cultivado destas uvas em algumas regiões dos países, ganham tanta importância que acabam ofuscando outros vinhos de tanta ou maior qualidade.

No Brasil, onde a presença forte das uvas Vitis viníferas é relativamente recente, desde as décadas de setenta e oitenta quando se importaram grandes quantidades de mudas da França e da Itália, se busca uma variedade que seja a mais representativa das regiões produtivas.

Como a única região produtora nessa época era a Serra Gaúcha, nos referiremos a esta inicialmente.

A Serra começou certo e continuou errado.

Começou certo porque as primeiras uvas tintas foram Cabernet Franc e Merlot que se adaptaram bem, resultaram em excelentes vinhos e comercialmente tiveram bom desempenho, em especial a primeira chamada somente Cabernet.

O consumidor não tinha a menor ideia que existia mais de uma “Cabernet”.

A uva branca mais cultivada era a Riesling Itálica que resultava em vinhos frescos, aromáticos e extremamente agradáveis.

Com o tempo e a necessidade de ganhar mercado, as vinícolas procuraram os caminhos mais rápidos.
Assim surgiram vinhos de marcas com apelo francês como Château Duvalier, Maison Forestier, Baron de Lantier, Georges Aubert, Saint Germain e outros. Com esses nomes era necessária a presença de uma variedade que os representasse e a escolhida foi a Cabernet Sauvignon, famosa, charmosa, base dos grandes vinhos do mundo, apelativa, perfeita.

O erro não foi a escolha desta variedade de ciclo tardio, foi abandonar totalmente a Cabernet Franc e relegar ao segundo plano a Merlot.

Quem elabora vinhos sabe da importância do clima na fase pre-maturação, em especial as chuvas.
Quando o grão encerra a fase de crescimento intracelular e define seu tamanho, a água das chuvas o encharca provocando um efeito diluidor.

Por isso as variedades de ciclo mais longo como Cabernet Sauvignon, sofrem mais o efeito das chuvas que infelizmente são frequentes.

Na minha longa experiência elaborando vinhos tintos no Rio Grande do Sul, tanto na Serra como na Campanha e Serra do Sudeste, comprovei como a Merlot e a Cabernet Franc, que são de ciclo mais curto, sofrem menos, maturam sem maiores sobressaltos, oferecem taninos mais doces e amáveis, são mais apropriadas para produzir bons tintos jovens ou envelhecidos.

Muitos dos vinhedos cultivados nas últimas décadas em novas regiões foram implantados, a meu ver equivocadamente, com predominância de Cabernet Sauvignon. Se fosse proprietário de um deles faria a reconversão através de enxertia e escolheria Cabernet Franc e Merlot.
São ainda desconhecidas para o grande público, mas sem dúvida mais confiáveis.

É importante entender que o mercado hoje, apesar de estar mais preparado, continua ávido de novidades, garimpa na busca de confiança, tipicidade, caráter.

Talvez seja esta a razão do constante crescimento dos vinhos importados sobre os nacionais, porque oferecem a todo momento marcas, regiões, uvas e estilos diferenciados.

Sei que há dezenas de outras variedades que poderão dar bons resultados, algumas apropriadas para algumas regiões, outras não, mas acredito que o desafio de recuperar a confiança do consumidor quando o tema é vinho tinto, passa pelo resgate de duas variedades que já demonstraram quanto são generosas com o Brasil, Cabernet Franc e Merlot.

Talvez uma delas possa se transformar em emblemática ajudando á imagem do Brasil internamente e no exterior.